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domingo, 16 de janeiro de 2011

Mestre Naldinho avalia saída da Capoeira Angola Palmares na Paraíba

Artigo publicado pelo portal Jornal do Capoeira em 28/01/2005

Nesta entrevista, realizada pelo pesquisador de cultura popular BenéMestre Naldinho  fala sobre seu trabalho na Paraíba, além de avaliar seu desligamento da Capoeira Angola Palmares de Mestre Nô.

Sob a responsabilidade do senhor Norival Moreira de Oliveira, Mestre Nô, a  Associação Cultural de Capoeira Angola Palmares, fez e deixou história na Paraíba. Mais precisamente em 1990, o mestre Nô inicia supervisão aos grupos Badauê de PalmaresLua de Palmares e Senzala de Palmares, passando depois todos a se intitularem Capoeira Angola Palmares. Sentimentos humanos, são coisas que não se podem desconsiderar num trabalho coletivo. Analisando todo esse período de existência da Capoeira Palmares na Paraíba, percebo que falta, assim como falta no resto do Brasil, ver que as pessoas têm sentimentos e as vezes as decisões são tomadas sem levar em consideração esse parâmetro. Observa-se que nos grupos ou associações, há uma hierarquia exagerada, levando-se em consideração um novelo de lã, que transformado em um símbolo de força, perpassa todos os outros sentimentos, fazendo valer apenas aquela autoridade outorgada pelo cordel, ou seja, temos medo e não respeito.

E isso, na maioria das vezes, gera o que sempre ouvimos ou escutamos: fim disso, extinção daquilo, desfiliação daquele outro. Precisamos fazer uma reengenharia da Capoeira, mostrando e comprovando que a tecnologia está aí. Não eliminar e sim para somar todas as intenções que unam os sentimentos das pessoas bem intencionadas. Afinal de contas a capoeira está cheia de grandes filósofos (os mestres da velha guarda), nós que estamos surgindo com esses novos aparatos tecnológicos e toda liberdade possível de expressão, devemos parar para uma tomada de consciência.

Trago aos internautas do Jornal do CAPOEIRA, uma entrevista com o senhor Inaldo Ferreira de Lima, o Mestre Naldinho, fruto dessa nova geração de mestres, e que graças a Deus parece estar bebendo dessa nova forma de fazer e viver a história da Capoeira.

Segue na íntegra a entrevista.

JCap " Mestre Naldinho, fale um pouco do seu trabalho na Paraíba!
M.Naldinho -- O nosso trabalho começou em 1980 com a fundação do Grupo Senzala de Capoeira. O nome era uma homenagem a Senzala onde os escravos moravam. Esse trabalho que durou 10 anos, até conhecer mestre Nô de Salvador, presidente do Grupo Palmares de Capoeira, que veio a João Pessoa, através de um aluno dele, o professor Aluisio Guerra, que ministrava aulas aqui. Fomos convidados a participar do evento chamado "I Batizado de Capoeira em João Pessoa", evento este que durou três dias.
Nessa ocasião, conhecemos o mestre Nô. Ele e outros mestres presentes conheceram o nosso trabalho e isso gerou um convite para filiarmos ao Grupo Palmares. Aceitamos o convite e mudamos consequentemente o nome do nosso grupo, que passou a ser Grupo de Capoeira Senzala de Palmares. Esse trabalho continuou sendo desenvolvido dessa vez sendo orientado pelo mestre Nô e que em 1997 teve uma mudança no nome do grupo, quando foi retirado o nome Senzala. Isso ocorreu depois de uma reunião em 1996 para mudança geral do grupo, pois existiam vários grupos filiados ao Capoeira Palmares do mestre Nô. Cada grupo tinha o seu nome e a idéia do mestre Nô era que nós tivéssemos apenas o mesmo nome, Capoeira Palmares. Mas como houve resistência por parte de alguns mestres do grupo, continuaram com o nome.
Em 1997 nós fizemos mais um festival " o segundo, pois o primeiro foi em 1996. Foi quando nós resolvemos colocar o nome Angola dentro do símbolo do Capoeira Palmares, e no festival tivemos a ousadia de colocar Capoeira Angola Palmares. O nome foi bem aceito pelo mestre Nô e está ai até hoje. Nosso trabalho passou consequentemente a ser chamado de Capoeira Angola Palmares do Mestre Naldinho e alunos. Esse nome foi utilizado até 2004.
Esse período até 2004, foi muito proveitoso, pois nós recebemos muita coisa boa dentro da capoeira, alguns conhecimentos, viajamos muito todo o tempo que tivemos com o mestre Nô. Conhecemos muitas pessoas com ele, conhecemos muitas pessoas diferentes e aprendemos muito de capoeira. Também demos muita coisa ao mestre Nô dentro da capoeira. Mas nós sentimos a necessidade de fazer um trabalho a parte.  E no final de 2004, durante o Festival, anunciamos o nosso desligamento do Capoeira Angola Palmares.
Começamos uma nova fase, mas o trabalho é a continuidade do que iniciamos em 1980. Fundamos então o Capoeira Angola Comunidade do Mestre Naldinho, com a participação dos contra mestresChicoRobson e dos alunos.
JCap " Nós temos muito o que falar da Palmares na Paraíba, o que ela deixou, mas eu gostaria que o senhor explicasse para os leitores do Jornal do CAPOEIRA, a diferença, como o senhor frisou, em vez de batizado - como é  de costume adotado pelos grupos de capoeira pelo Brasil afora " realizar Festival... o que isso tem representado para a capoeira na Paraíba?
M.Naldinho -- É verdade, esse (...) a história de batizado para a capoeira angola, é um (...) eu viajo pelo Brasil, pelo mundo e quando se fala  de batizado, é uma coisa que foi criado pela Capoeira Regional, que tratava apenas da roda, botava o aluno para jogar com o mestre, o mestre aplicava um desequilibrante e entregava o cordel e aí era o batizado apenas. Poderia ser "Encontro de Capoeira angola", mas em 1996, pôr intermédio do mestre Marron do Rio de Janeiro (obrigado Marron!!)... Eu comecei a ver de uma outra maneira os encontros de Capoeira, e daí tirei de imediato o nome de batizado ou batismo de capoeira e também tirei o título de exame de graduação, e começamos a usar o nome de Festival de Capoeira Angola.
Pra que isso! " pra que mestre que fosse convidado, se sentisse forte para ministrar oficina, participar de palestras, e discussões com nosso alunos, contra-mestres e professores e comigo. E também para que os alunos se sentissem a vontade para cobrar as coisas, os ensinamentos dos mestres convidados. Minha intenção era apagar de vez, dentro da Paraíba, o exame de graduação que era uma "rinha", onde dois gladiadores iam matar um ao outro, isso era o que acontecia, e o grupo estava dentro desse contexto. A idéia de tirar o título exame de graduação, dentro de um festival, e também tirar as brigas, acabar com a violência nos encontros de Capoeira. É muito bom quando você uso o nome festival para determinada coisa, no caso a capoeira, porque a energia positiva que vem pra dentro do encontro é muito grande, se o festival tem duração de cinco dias, é muito bom, se  vai durar só dois dias, também é muito bom, por que o mestre  que eu convidei, que a comunidade convidou, irá fazer um trabalho a vontade, vem para uma festa, não apenas para uma roda, onde vai ter que mostrar que é  melhor que o outro, não!
Vem para uma festa, um festival, sinônimo de alegria entre alunos contra-mestres e mestres.
JCap " Como você avalia seu trabalho com relação a outros mestres na Paraíba com relação a essa mudança de métodos no encerramento de cada ano e a relação com o próprio batizado. Qual sua opinião de positivo entre um e outro, desde que foi implantado o festival?
M.Naldinho -- Bom, de positivo tem muita coisa, é tanto que quando termina o festival, temos em seguida uma reunião de avaliação. Eu não consegui ainda anotar muita coisa de negativo não. É que dentro de um festival de capoeira as falhas são tão pequenas, que o lado positivo cobre a parte negativa, ficando apenas um ensinamento para o nosso próximo festival.
Quanto ao batizado dos outros mestres na Paraíba, continuam acontecendo, sou convidado a participar de muito deles, eu vou lá e faço, junto com meus contramestres e meus professores, parte da festa do pessoal. Talvez eles pensem como batizado, que eu tenho que chegar lá e mostrar que sou mestre, que meu aluno é contramestre, temos que provar alguma coisa e nós não gostamos disso, não precisamos estar trocando pancada com aluno ou com outro mestre para mostrar que sou mestre; para mostrar que é mestre a gente faz a festa pra gente e convida o povo, pra eles entenderem porque do título mestre, porque do título festival. Mas estamos começando, só temos vinte e cinco anos de trabalho, e cada dia pra quem está começando é um ensinamento, a vida na capoeira é como um livro, cada dia que passa é uma página e cada página é uma coisa diferente. Vamos continuar mudando, os festivais vão continuar crescendo e continuar acontecendo na Paraíba e no Brasil. Enquanto isso, no batismo de capoeira, as algumas pessoas infelizmente vão estar se digladiando.  
JCap " Com relação ao Jornal do Capoeira, que a partir de agora está circulando, em suas páginas pela Internet, informações acerca da cultura popular na Paraíba, especificamente sobre a cultura que permeia a capoeira!
M.Naldinho -- Primeiro eu quero dar os parabéns ao pessoal do Jornal do Capoeira, que isso mostra o desenvolvimento da capoeira, nós já temos uma roda virtual, a internet agora não para, é muito interessante a Roda Virtual e o Jornal Virtual, é tudo que a capoeira tava precisando nos dias de hoje, tá desenvolvendo e tem que acompanhar o desenvolvimento da tecnologia, é muito interessante.
Quando eu posso eu escreve uma matéria para botar no jornal, e muita gente vai pegar  o papel, abrir as páginas e ler, porém, é muito interessante esse público de internautas que temos hoje, ele é muito grande. Então estão de parabéns e com certeza a Paraíba vai dar muita contribuição na pessoa deBené, que está sob sua responsabilidade na Paraíba. Ele tem muita coisa para mostrar e a Paraíba tem muita coisa para falar sobre Capoeira, sobre as atividades culturais do estado, sobre os outros grupos de capoeira que estão envolvidos nas outras partes culturais, não só capoeira, mas nas outras atividades culturais do Estado.
JCap " Para concluirmos nossa entrevista, gostaríamos de ouvir do senhor, o perfil do mestre Naldinho, sua personalidade como pessoa e como capoeirista, um breve histórico do Mestre Naldinho!.
M.Naldinho -- Breve!.. (risos) " meu nome é Inaldo Ferreira de Lima, eu gosto que a pessoas saibam o meu nome, estou na casa dos quarenta anos de idade, comecei a praticar capoeira com oito anos, então eu já tenho um certo tempo, eu gosto de ser alegre. Participo de várias atividades, sou funcionário público e minhas atividades são diretamente com o ser humano - trabalho com todo tipo de ser humano - pelas minhas atividades profissionais, então muitas horas tenho que ser muito sério para dizer algumas coisas do meu trabalho. Outras horas eu tenho que ser muito extrovertido, também para conseguir solucionar alguns problemas do dia-a-dia do trabalho, outras vezes eu tenho que ser pai de muita gente, tenho que ser filho e eu procuro ser o mais verdadeiro possível. Eu vou rir na hora de rir e quando tenho que chorar, eu abaixo a cabeça e choro também, porque eu sou ser humano e como ser humano, tomo minhas rasteiras, quando posso aplico minhas rasteiras na roda, e na vida estou sempre tentando está preparado para as rodas do dia-a-dia dentro da capoeira e da vida.
JCap " Mestre, sua mensagem final para os capoeiristas desse Brasil a fora que  a partir de agora estão "degustando" as informações da Capoeira e da cultura paraibana de modo geral.
M.Naldinho -- Na Paraíba tem capoeira. Na Paraíba tem Capoeira Angola, na Paraíba tem muita gente que está desenvolvendo capoeira e a mensagem principal, continuem treinando capoeira. E quem não é procure um tempo, procure uma maneira, um professor, um mestre, um contramestre, pessoas que saibam fazer o trabalho. E comece a pesquisar. E que os mestres, os  novos mestres, as pessoas que estão chegando agora a mestria, pesquise sobre capoeira, procure os mestres mais antigos, os velhos mestres, os mestres velhos, procurem que esse pessoal tem muita coisa para passar pra gente. Sejam humildes, pois é muito interessante que o ser humano seja humilde, porque a humildade, para mim, é um principio da plenitude!
E assim, fechamos mais uma entrevista exclusiva da Paraíba para o "Jornal do CAPOEIRA", lembrando aos ansiosos que não se precipitem, pois não haverá privilégios de publicação de matérias e as informações geradas de todos os recantos da Paraíba, no que diz a história da Capoeira, serão publicadas, seja benéficas ou maléficas. Pois assim como as bombas que estouram no Iraque e são informadas ao mundo, as nossas "bombas", também o serão, afinal de contas, a história da capoeira não pertence  a "A ou B", ela é um patrimônio  da cultura Afro-brasileira.  
Nota da Redação: Na foto aparecem os Mestres Jorge Satélite e Dinelson, da Bahia, e Mestre Naldinho da Paraíba " Festival de Capoeira de 2004.
Entrevista realizada por Bené (PB) em Janeiro de 2005. Bené é pesquisador de Cultura Popular da Paraíba, e integrante do Grupo Zumbi de Cultura Popular.

Escola Mukambu e 15 Anos do Palmares

Reportagem publicada no portal Jornal do Capoeira em 23/12/2005

Contramestre Fernando Moreira fala da "Escola Mukambu de Capoeira Angola" e dos 15 anos do Grupo Palmares de Mestre NÔ em João Pessoa



Jornal do Capoeira - www.capoeira.jex.com.br
Edição 54 - de 18/dez a 25/dez de 2005

Nota do Editor:
Neste ano de 2005 o Jornal do Capoeira recebeu contribuições importantíssimas das diversas regiões do Brasil: Rio, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo, Pernambuco, Brasília etc. Particularmente tomo a liberdade de parabenizar dois Estados, a Paraíba e o Maranhão. O primeiro que tem contato com a brilhantemente cobertura jornalístico-cultural do amigo Benedito dos Santos (Bené), e o segundo que conta com a participação do professorLeopoldo Vaz do CEFET-MA. Nossa meta para 2006 é estender a atuação para mais alguns Estados, senão todos! Parabéns Bené e a todos os Mestres e grupos da Paraíba! Vamos a entrevista "saideira" de  2005.




                Iêêê! Miltinho Astronauta
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Grupo Zumbi de Cultura Palmares
João Pessoa - Paraíba

O coordenador da Escola Mukambu de Capoeira Angola Palmares, contramestreFernando Moreira, realiza com pleno êxito trabalhos nas sedes de Cabedelo, Alto do Mateus e também da Alemanha. Fernando atua na busca pela sustentação da cultura através de parcerias e fala também dos quinze anos de atuação da Associação Brasileira de Capoeira Angola Palmares, sob a supervisão geral domestre Nô.

JOC: Contramestre Fernando Moreira, fale um pouco do seu trabalho na Alemanha.

Fernando Moreira: Atualmente resido e trabalho na Alemanha, desenvolvendo atividades com capoeira nas cidades de Hamburgo, onde resido, e Lunemburgo. Os projetos que desenvolvo na Europa são semelhantes aos do Brasil, porque são projetos voltados também para a área social. Trabalho também com a universidade e com escolas, atendendo crianças e adolescentes; esse trabalho é um pouco da continuidade do que nós fazemos aqui na Paraíba, mas o público é socialmente um pouco diferente.

JOC: As dificuldades inerentes, como idiomas, raças, além dessas dificuldades naturais, quais você passa ou já passou e tenta superar?
Fernando Moreira: Essas dificuldades lingüisticas são algo assim que realmente qualquer que saia do pais e vá viver em outro país sente, porque sem comunicação não há entendimento, não há socialização, então são dificuldades que precisam ser superadas, graças à deus eu já falo o idioma, mas as outras dificuldades também são os desligamento da família, os amigos, tudo isso, conviver com outra cultura, aprender novas formulas de se relacionar, de se comunicar com as pessoas, isso também são desafios que é preciso que estejamos abertos para isso, porque se torna uma dificuldades que muitas vezes muitos desistem e não conseguem superar essas dificuldades, porque é realmente voltar a ser criança, aprender tudo de novo, enquanto costumes, enquanto a nova língua e estar aberto para aprender e tolerar uma outra cultura, assim como também aprender a repassar a nossa cultura, é um desafio na verdade!

JOC: Fale sobre a criação da Escola Mukambu.
Fernando Moreira: A escola Mukambu de Capoeira Angola Palmares, é uma idéia que surgiu em 1998, quando eu já sentia necessidade de ligar a nossa ação a um nome e a um projeto. Nós já temos essa coisa do grupo Palmares - uma homenagem ao grande Quilombo de Palmares-, mas buscamos também uma ação que tivesse uma denominação parecida e que nós mesmos tivéssemos a consciência de que a nossa ação, era uma pequena ação dentro de um trabalho maior: o trabalho do grupo Palmares. Surgiu então a idéia do Projeto Mukumbu, uma referência às pequenas aldeias que formavam os quilombos. Nossa idéia e ação política com a capoeira e social partiram desse princípio, como se fossemos aldeia de trabalhos e de ações que, mesmo sendo pequenas, ao serem somadas formariam as grandes ações, que é a consciência e o trabalho com a capoeira e com a cultura negra de modo geral.

JOC: Qual a origem da palavra Mukumbu? É algum dialeto afro?
Fernando Moreira: A palavra Mukumbu vem "kibumdo", que é uma das centenas de línguas faladas na África. O kibumdo é uma língua que foi e continua sendo muito utilizada, tanto é que influenciou a formação do linguajar de diversas regiões do Brasil, principalmente a Bahia.

JOC: Você teria exemplos de Kibumdo?
Fernando Moreira: No mucambo, temos a palavra moleque, caxixi, entre outras. Tem muita gente que confunde mucambo com mucama, e são termos com significados distintos. Tem um trabalho do professor Oscar Ribas na Internet que trás uma lista de palavras kimbundo utilizadas na nossa língua atualmente.

JOC: Em Julho último, se comemorou 15 anos de atuação do Capoeira Angola Palmares de Mestre Nô na Paraíba. Como você avalia este período?
Fernando Moreira: São 15 anos de muito trabalho e muitas descobertas, mas também de muitas decepções, como haveria de ser em qualquer trabalho coletivo. Creio que esses 15 anos de atuação do Grupo Palmares deu uma direção positiva para a capoeira no Estado da Paraíba, porque quando o Grupo Palmares chegou aqui a Capoeira não tinha a dimensão que tem hoje. Os mestres mais antigos podem confirmar isto. Então na minha concepção foi na chegada do Palmares que houve mais encontros, os capoeiristas tiveram a preocupação de viajarem mais em busca de informações e, consequentemente, terem contatos com outros capoeiristas. Vejo estes 15 anos de forma muito positiva, mas lamentavelmente, neste período, perdemos alguns membros que se desligaram da Palmares. O trabalho da Palmares contribuiu positivamente com a Capoeira no estado da Paraíba, especificamente em João Pessoa.

JOC: Como você avalia a Capoeira enquanto Cultura?
Fernando Moreira: A capoeira sempre foi e sempre será cultura, apesar dela receber hoje varias denominações, como é o caso de sua face desporto. Em uma entrevista de certo mestre ele dizia: "A capoeira é como uma mão, porque ela é composta de vários elementos, cultura, filosofia, até mesmo desporto, entre outros fatores que formam a capoeira", porém, se tirar um desses elementos, é como uma mão sem o dedo, esse elemento que se desliga da capoeira, esse elemento vai morrer. Então se a capoeira ficar apenas como desporto, ela vai perder muito, porque são muitos elementos que a compõem e esses elementos, esses costumes, no meu entender é o que formam a palavra cultura, que são expressão de um povo.

JOC: Qual a importância da Internet na capoeira?
Fernando Moreira: Lamento que alguns colegas de profissão e alguns alunos ainda não tenham acesso a esse tipo de benefício, e vejo a Internet de forma muito positiva. Haja visto que em alguns minutos é possível acessar centenas de informações. Eu incentivo e acredito que todos devam procurar ter o mínimo de conhecimento em informática para poder ter acesso a esses benefícios, e a Internet é um beneficio de valor incalculável. Frisou o contramestre Fernando Moreira.

JOC: Como você vê as mais recentes demissões dentro do grupo palmares, incluindo-se na Paraíba?
Fernando Moreira: Lamento! Lamento porque algumas situações poderiam ser evitadas, mas também entendo que faz parte do processo evolutivo da capoeira, que antigamente, não muito longe, mas quando eu comecei capoeira, ainda tinha aquele sistema de o aluno se tornar professor, sair para construir o seu caminho, colocar em pratica o que o mestre tinha ensinado até aquele momento. E, é claro, teria o acompanhamento do mestre sempre, o mestre o acompanhava e o aconselhava sempre que necessário. Com o advento desses grandes grupos, mega grupos, creio que começou algo como uma forma de manter o aluno na mesma instituição, no mesmo grupo, acho que isso é um aspecto negativo que aconteceu na capoeira. Essa coisa do grande grupo ter que agregar muita gente, aquela coisa do ficar todo mundo ali, no mesmo lugar, no mesmo espaço, na mesma casa é algo complicado. Acho que é um processo natural, todo mundo buscar sua melhora, agora no caso especifico da Paraíba, acredito que poderia ter sido de outra forma, de uma forma que não houvesse assim, tantos danos emocionais nas partes envolvidas.

JOC: Recentemente, foi realizado a "I Conferência Internacional de Capoeira Angola" em João Pessoa. Que resultados e perspectivas você avalia desse evento?
Fernando Moreira: Eu avalio de forma muito positiva, mesmo tendo participado apenas dois dias. A Escola Mukumbu de Capoeira Angola Palmares esteve representada por dois de nossos integrantes e os relatos dos mesmos foram positivos. Eles elogiaram bastante a atuação dos mestres de capoeira, e eu achei isso interessante, porque a gente percebe que a cada dia os mestres têm essa preocupação de estarem mais perto do aluno, atendendo as necessidades de ânsia de conhecimento eles têm. No tempo que eu comecei era todo muito mais difícil, havia uma distância entre o mestre e o aluno. Percebo que a cada dia isso essa distância é menor. Há tendência desse encontro crescer, não para beneficiar esse ou aquele grupo, mas a capoeira de modo geral, pois vai possibilitar uma discussão, uma discussão ampla sobre a capoeira, sobre temas que são de interesse de todos nós. Confirma o contramestre.

JOC: Você realizou recentemente um encontro de capoeira. Quais as expectativas do Mukumbo para os próximos eventos?
Fernando Moreira: Fizemos o "Encontro Mukumbo de Capoeira Angola Palmares" como um desafio, pois, na verdade, há dois anos atrás (2003) a situação da Capoeira Angola Palmares na Paraíba já era difícil. Mesmo sabendo que se tinha uma base sólida, que era a base mais antiga, o mestre Sabiáhavia saído do grupo, e os mestres Naldinho havia permanecido e o mestre Tunico, que nos dava total cobertura. Neste ano de 2005, tanto o mestre Sabiá, Naldinho e o Mestre Tunico (que mesmo sendo de outro estado está muito próximo da capoeira paraibana), estavam ausentes. Este foi o grande desafio, fazer um evento mesmo sem esses mestres estarem presentes. Felizmente conseguimos trazer o mestre Sabiá e o mestre Naldinho. O mesmo não foi possível com o Mestre Tunico, o que foi uma pena e sentimos muito. Mas também entendemos que era fato muito recente, a sua saída do grupo, e precisava de tempo conforme o mesmo mestre esclareceu depois. Nosso desafio foi contar com o apoio desses mestres que foram do grupo Palmares e hoje não são mais, e que apoiaram o nosso evento em sua totalidade. O evento teve boa aceitação pela comunidade e foi realizado em João Pessoa, Cabedelo e Campina Grande. Conseguimos mostrar  que existe a Escola Mukumbo de Capoeira Angola Palmares nessas 3 cidade, nesses três pólos importantes da Paraíba. E o desafio foi muito grande, assim como a coordenação do Grupo Zumbi de Cultura Popular, que é acostumado a fazerem evento sabe lidar com esse nível de dificuldade, mas nos sentimos muito feliz. E para um futuro próximo estamos planejando novas atividades, temos algumas idéias, ainda estamos no processo de avaliação, pois, eventos a partir de agora, encontros, implicam não só o Brasil, pois tem eventos que queremos fazer na Europa, e estamos trabalhando na elaboração de um calendário internacional de trabalho.

JOC: Então sua mensagem final para os capoeirista do Brasil e do mundo.
Fernando Moreira: Para eu dar uma mensagem final para todos, não vou dizer que é uma tarefa difícil, mas é uma responsabilidade, haja visto que eu não tenho tanto tempo de capoeira, assim de pratica, mas o que eu posso dizer, no meu entendimento é que o capoeirista, antes de se colocar com tal, e de querer se auto afirmar, ele tem que entender que ele é um cidadão. Ele sendo um cidadão, tem que entender que deve respeitar o outro para poder se fazer respeitar. Partindo deste principio, trazendo esse ensinamento para a capoeira, aprender a respeitar as diferenças e aceitar as diferenças, tolerar o outro, que muitas vezes nós pecamos como pessoa e como capoeirista. As vezes acreditamos que as nossas convicções são as únicas verdadeiras, que as nossas opiniões são as únicas que tem valor, mas na verdade não é assim, a capoeira é um processo coletivo, um processo de aprendizagem coletiva, e da mesma forma que estamos dispostos a falar o que sentimos também temos que estarmos abertos para ouvirmos o que o outro sente. Acho que essa falta de entendimento é que compromete muito vezes os relacionamentos entre amigos, até do mesmo grupo, da mesma escola, e entre mestres e alunos. É um processo difícil, mas temos que exercitar, há casos que se tornam difíceis, mais é um exercício na capoeira, uma vez que ninguém é dono de ninguém, e ninguém é senhor absoluto da verdade. Finalizou o contramestre Fernando Moreira.